Esqueci minha senha
Ir para o conteúdo - Atalho [T]

IBRAJUS - Instituto Brasileiro de Administração do Sistema Judiciário

Revista On-line

Formação de liderança - Gerenciando o objetivo comum: a liderança pela corretagem do poder

 

Procurar-se-á, por meio do presente ensaio crítico, analisar o texto "Gerenciando o Objetivo Comum: A Liderança pela Corretagem do Poder" sob o ângulo da possibilidade de adoção, pelo Tribunal a que pertenço, de pontos nele contido e que possam ser úteis ao desenvolvimento de nosso trabalho.

Sem sombra de dúvida, cuida-se de texto enriquecedor e que aponta para uma visão de organização otimista moderada, diante do paradigma determinista que permeia as organizações governamentais, as quais, em regra, têm sua atuação calcada na concepção de chefias alçadas ao poder tão–somente por força do cargo que exercem, sem levar em conta as competências para tal. Comumente, não são as características meritórias que as levam a exercer o poder. Algumas delas se julgam "iluminadas" porque, diante do paradigma determinista que norteia nossa sociedade, pensam terem "nascido" com o dom da liderança. O otimismo moderado a que me refiro se mostra claro quando se lê no texto que a capacidade de liderança pode ser formada a partir de técnicas específicas, ou seja, cuida-se de habilidades a serem adquiridas. A proposta arrojada de mudança de paradigma traz em seu bojo a necessária paciência, porquanto se está à frente de mudança de cultura na organização, que não se realiza a partir do pensamento mágico de que tudo se reverterá em uma ou duas gestões administrativas. Há que ser implementada a alteração a partir de uma semente profundamente enraizada, mas que se sabe, somente dará frutos a seu tempo.

Ainda, quanto à aplicação da tese ora esposada nas instituições governamentais brasileiras, necessário se faz tecer algumas considerações sobre o funcionamento do serviço público, sob a ótica das lideranças, para se concluir que a possibilidade de mudança há de ser a longo prazo - lenta e gradual - tendo em conta nossa histórica tradição patrimonialista, dominada ou pela ordem autoritária (no sentido de Maquiavel) ou pela carismática (no sentido Weberiano), a depender da personalidade de quem assume o Poder. Assim, o "chefe" está lá posto e se impõe por força da autoridade que o cargo lhe concede; noutras vezes, é escolhido por interesses outros advindos dos mais variados fatos – forças políticas, interesses pessoais, parentesco, etc. Alguns galgam o poder se intitulando e sendo reconhecidos como "líderes iluminados" porque "nasceram" com o dom da liderança, como bem explicita o texto em análise. É claro, alguns, mais esclarecidos, se fazem autoridade, não por força do cargo que exercem, mas porque, em um processo de eterno aprendizado (aprendem e ensinam), conseguem fazer com que todos os componentes do grupo tenham oportunidade de exercer suas autorias, o que os fazem, também, autoridades.

A mudança de paradigma há de ser empreendida a partir da compreensão do que seja realmente exercer liderança. Por isso, a importância do texto ora apresentado e de programação intensa e contínua, nos moldes de cursos como este que está nos sendo proporcionado, tudo na persecução de maior qualificação gerencial no quadro profissional das organizações governamentais, especialmente no que diz respeito às relações de subordinação.

Voltando à possibilidade de ser implementada proposta neste sentido, no Tribunal Regional Federal da 4ª Região, tenho a dizer que não só é possível aplicar as técnicas recomendadas no texto, como há em nosso meio nichos de excelência em que todos ou quase todos estes cânones estão presentes. Há setores em que os dirigentes (segundo escalão- nível tático -, já que em relação ao primeiro escalão (Desembargadores) farei considerações abaixo) exercem o papel de líderes na acepção literal da palavra. Nestes locais, o leiaute já denuncia a transformação operada, pois neles não estão presentes os famosos "aquários", divisórias que separam os chefes (Diretores, Assessores, Chefes-de-Gabinete, etc) dos subordinados. Além disso, colocam-se os líderes na função de facilitadores do trabalho dos demais colegas, preocupando-se mais com o auxílio cotidiano por meio de discussões e menos com o papel tradicional de fiscalizadores (vigiar e punir) das atividades desenvolvidas. Pensam no processo de trabalho em conjunto com os demais servidores. Valorizam o erro porque o encaram como fator de aprendizagem e não de desestímulo à atividade do servidor. Ajudam as pessoas a crescerem profissionalmente pelo estímulo constante, por meio de variadas técnicas de dinâmica de grupo. Acrescente-se a isso importante fator psicológico que se consubstancia na capacidade que estas pessoas têm de tornar o ambiente de trabalho favoravelmente solidário. Importante frisar, e as estatísticas comprovam, que estes grupos se distinguem por sua alta capacidade de produção. Mas não só isso, se destacam pela qualidade do trabalho desenvolvido. Em relação ao trabalho de Gabinete, vale frisar, isso tudo acontece por conta da habilidade que tem o Desembargador de delegar funções e de entender que a gestão há de ser compartilhada.

Por outro lado, importa ressaltar, "nem tudo são flores", não se há de pensar que esta é a regra. Não. Por isso, mais uma vez se releva a necessidade de compreensão do papel do líder, a partir de parâmetros técnicos, na linha conduzida pelo texto em análise, bem assim em outros tantos trabalhos acadêmicos já produzidos neste teor.

Outrossim, não se está aqui, como creio também não foi idéia do texto, a fazer apologia do igualitarismo. Não. É importante lembrar que os grupos são formados por pessoas que exercem papéis e que estes os distinguem uns dos outros. Não é possível conceber-se um grupo sem coordenação, por isso a importância do chefe como uma "peça chave da engrenagem". O chefe tem responsabilidades que são suas e indelegáveis, o que faz, inclusive, com que responda administrativa e até penalmente por seus atos.

Da mesma forma, no que diz respeito ao Poder Judiciário, há de ser destacada a função própria do julgador, havendo necessidade de que ele (o magistrado) se distinga por sua capacidade de postar-se acima do senso comum no intento de fazer justiça. O Juiz há de exercer sua missão básica de resolver a lide, inclusive, pela capacidade que tem de colocar-se acima da ordem legal vigente, ou seja, firmar sua convicção baseada na ética pós-convencional. E é essa a razão pela qual entendo deva ele preservar-se de um contato privilegiador de uma ou de outra parte. Por essa razão, equivocadamente, interpreta-se que ele é um ser afastado das demais pessoas. Estar em sala apartada não significa distanciamento humano, mas, sim, o afastamento necessário para julgar, como já disse, além do senso comum.

Também não se quer dizer que esta diferenciação do Juiz do homem comum seja produto de "concessão divina", como querem alguns, mas sim conseqüência do pacto social fruto do sistema político republicano. A função jurisdicional – o Juiz natural e imparcial – está prevista em lei votada pelos parlamentares e, portanto, legitimada pela sociedade.

Após essas considerações, que entendo relevantes para se poder vislumbrar um pouco a dinâmica do Tribunal, sob o ponto de vista de sua organização hierárquica, volta-se ao texto em análise para ressaltar pontos que seriam úteis ao trabalho que é desenvolvido no sentido de aprimorá-lo.

A lição útil que se retira do texto é a de que a liderança é um conjunto de habilidades humanas que podem ser adquiridas pela aprendizagem do que seja ser líder. Também se retira a ilação de que por meio destas habilidades se obtém dos liderados o máximo de comprometimento para o alcance de propósitos comuns. Essa assertiva é chave para a persecução de metas que se possa pretender alcançar em nosso Tribunal.

Assim, há em nossa instituição, como em qualquer outra organização, pessoas que exercem cargo de chefia, mas não detêm a qualidade de líder e o texto deixa claro que as competências para tal podem ser adquiridas por meio de metodologia específica.

E como se faz isso ?

Acho que a última página do texto traduz com precisão ponto de vital e de grande utilidade para a formação de liderança, pois sintetiza o que deve fazer um líder e o que dever ser evitado pela pessoa que exerce esse papel. Assim, o quadro 4 –"Uso da Autoridade na Liderança de Equipes" aponta passo inicial a ser seguido na implementação de programa permanente de capacitação para formação de líderes que é primordial para a organização.

Entendo, portanto, que a metodologia a ser empregada nesse intento é a de que as pessoas que exerçam cargo de chefia no Tribunal tenham conhecimento, por meio de cursos, trocas de experiências, textos a serem disponibilizados em site, etc, de que a eficiência da gerência depende do exercício efetivo da liderança; que a liderança é um fenômeno de grupo que envolve influências de uns sobre os outros; que os liderados necessitam de um espaço onde possam desenvolver sua criatividade e se auto-realizar na execução da tarefa sob sua responsabilidade. Enfim, saibam os que exercem cargo de chefia que, por meio de atividade pedagógica constante serão capazes de reconhecer as habilidades e qualidades que poderão fazê-los verdadeiros líderes.

Vilson Darós por Vilson Darós
Desembargdor Federal do TRF da 4ª Região Ex-Presidente da AJUFE Ex-Corregedor-Geral

mais artigos deste autor»