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IBRAJUS - Instituto Brasileiro de Administração do Sistema Judiciário

Revista On-line

Formação de equipes de alta performance no setor público

 

 

                                                                                 Das Utopias

 

Se as coisas são inatingíveis... ora!
não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
a mágica presença das estrelas!

Mário Quintana

 

 

 

O gerenciamento das equipes no setor público, sem dúvida, tem sido um desafio às lideranças, em termos de desempenho e resultado. Observamos que as instituições públicas vivenciam um significativo crescimento na demanda, pelo aumento da criminalidade, da globalização da economia, etc, mas ainda são muito criticadas, sobretudo pela demora na prestação dos serviços. É o que se percebe, por exemplo, de modo bastante nítido, no âmbito do Poder Judiciário.

Diante disto, o Estado vem substituindo o tradicional modelo de gestão, a passos largos, modernizando as estruturas, os processos de trabalho, com inspiração nas melhores práticas da iniciativa privada. Nesse sentido, o foco tem sido a produtividade, os custos, as metas, sem perder de vista a natureza dos serviços prestados, como práticas essenciais ao cidadão.

Diferente do setor privado, a estruturação das equipes de trabalho ocorre por meio do concurso público e, às vezes, pelo remanejamento interno dos servidores. O turnover é baixo. Como regra, as pessoas permanecem no órgão, por muitos anos. Isso ocorre, normalmente, porque são vocacionadas para o serviço e, às vezes, pelo perfil do indivíduo, avesso às instabilidades do mercado de trabalho ou do mundo dos negócios, onde o campo para o empreendedorismo é sabidamente mais fértil.

 Esses aspectos direcionam para uma dupla interpretação. Pode-se pensar no risco da acomodação do servidor, em função da resistência a mudanças e da potencialidade de conflitos - pela competição exacerbada entre colegas ou, mesmo, em decorrência de mal entendidos, frustrações, contratempos e dissabores, frequentes em ambientes de convivência diária e duradoura. Apesar de tudo isso, verifica-se, na prática do serviço público, a facilidade de reunir um corpo funcional de inegável conhecimento - testado desde a prova de seleção - e de domínio sobre o serviço, adquirido e aperfeiçoado, ao longo do tempo, no exercício das funções.

Diante da crescente exigência de qualidade dos serviços, no entanto, a capacitação do quadro funcional precisa ser vista como prioridade, com cursos periódicos de desenvolvimento gerencial e eventos de capacitação, em sentido amplo.  

Podemos ressaltar, ainda, o fato de que a consciência do papel que os órgãos públicos desempenham, perante a comunidade, faz com que muitos já se dediquem a ações de responsabilidade social. Isso é feito, por exemplo, por meio de programas de estágio para menores, submetidos a medidas socioeducativas, bem como em eventos voltados à promoção da cultura local, por meio de feiras de artesanato e ações solidárias, destinadas aos colaboradores terceirizados.

Como forma de garantia do cidadão, a prestação do serviço público é orientada por normas preestabelecidas. Apesar dos parâmetros legais e das facilidades proporcionadas pela tecnologia, ainda há lugar para a inovação e a criatividade.

É inegável, contudo, que este peculiar cenário requer, do gestor, um maior empenho, no sentido de proporcionar condições para a mobilização das equipes de trabalho, no rumo dos objetivos institucionais, no comprometimento dos servidores e na conservação de um ambiente de trabalho saudável. Suas ações devem considerar as exigências externas do usuário e da sociedade, e as pressões internas, visando à otimização dos resultados.

Nesse sentido, o desempenho das equipes de trabalho ocupa, cada vez mais, uma posição destacada, quando se fala em urgências no setor público, ressaltando-se a necessidade de valorizar, individualmente, as pessoas que compõem essas equipes. Entendemos que a garantia do sucesso passa pela atuação do gestor, a quem cabe o exercício do principal papel no grupo. E isto envolve um conjunto de ações, voltadas a orientar o comportamento humano e as relações interpessoais, segundo as necessidades e finalidades institucionais e, ainda, em conformidade com as normas legais e regulamentares.

A atenção do gestor deve estar voltada à capacitação dos servidores e à transformação do conhecimento adquirido ou aperfeiçoado, em trabalho, com estímulo à atitude e ao aproveitamento das habilidades individuais. Fica, então, evidente, a importância do aproveitamento das habilidades individuais – o talento, a experiência, o perfil individual – o que reflete nos níveis de autorrealização. Esta é uma necessidade inerente ao ser humano, que repercute na felicidade, lembrando que trabalhar feliz é produzir mais e melhor.

Assim, é preciso ter presente que o concurso público seleciona o candidato, em regra, com formação teórica mais qualificada, mas os demais aspectos não são aferidos. O concurso público também não equipara as pessoas, em nível de necessidades. Há outras necessidades, que variam em termos de prioridade, dependendo da situação individual das pessoas. Por isso, ouvir as pessoas é um exercício indispensável ao gestor, assim como a flexibilidade, a humildade e a coerência. Destaco, ainda, a importância da generosidade, particularmente, no que diz respeito ao reconhecimento e elogio ao trabalho desenvolvido pelos seus colaboradores, com repercussão na autoestima.

Considerando que o gestor integra a equipe, parece coerente que as metas e as prioridades sejam estabelecidas em parceria com todos os componentes do grupo de trabalho. Isso precisa ser feito, independente das atribuições individuais, depois de informados os fins pretendidos. Como recompensa, esse gestor terá o comprometimento da equipe, no alcance dos objetivos desejados.  Para atingir os fins institucionais, contudo, o gestor deve se assegurar de que a política e a filosofia da instituição são suficientemente conhecidas do grupo (crenças, símbolos). Isso evita encaminhamentos dissociados da realidade do órgão. Alcançados os objetivos, cumpridas as metas, o reconhecimento deve ser compartilhado, porquanto o resultado obtido é decorrência do esforço de todos.

Neste contexto de transformações e estandarização da infraestrutura das organizações, gerir pessoas é apostar na capacidade e desenvolvimento do ser humano, nas competências e potencialidades individuais, que, somadas, reúnem as condições para superar os desafios da satisfação que o serviço público requer.

Ivete Rossoni por Ivete Rossoni
Servidora Pública Federal especialista em Administração da Justiça; Recursos Humanos e Direito do Estado

Site Pessoal: http://ivr@via-rs.net
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