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IBRAJUS - Instituto Brasileiro de Administração do Sistema Judiciário

Revista On-line

A VISÃO E EXPECTATIVA DOS SERVIDORES

Ao escrever sobre o tema visão e expectativa dos servidores não tenho a pretensão de passar grandes ensinamentos ou fórmulas mágicas para transferir a solução das inúmeras situações que surgem no dia a dia do serviço na justiça. Minha pretensão será alcançada se alguns puderem refletir, ao menos, nos seres humanos que se encontram em todo o processo, focado na idéia de repensar sua condição de trabalho, com a sensação de que ao final, o resultado poderá ser melhor ainda.

 

E como o tema trata da visão e da expectativa dos servidores, vamos iniciar pela visão!

 

Mas o que podemos chamar de visão de um servidor do judiciário?

 

Qual a visão que eles possuem do local em que trabalham e do seu espaço de atuação?

 

Será que os servidores conhecem e tem a mesma visão que um magistrado, por exemplo? Como fazer para que todos tenham a mesma visão da missão e dos valores organizacionais?

 

Começo dizendo que é preciso desmistificar a visão de que o servidor trabalha só em função do salário que vai receber ao final de cada mês, ou até mesmo de que nem trabalha, pois receberia de qualquer forma o salário. Esse tempo já se foi, porque assoberbados de trabalho, todos chegaram à mesma conclusão: que é preciso gerenciar de uma forma organizada a rotina, para que ao final de um determinado tempo o serviço executado seja maior do que a demanda a executar. Tal raciocínio decorre do conhecimento de que, quando se trabalha com processos, o ideal é que mais processos sejam movimentados do que entra na distribuição, que não cessa jamais.

Mas até pouco tempo, não existiam indicadores da atividade jurisdicional. Conhecia-se o nº de processos que entravam e que saíam (baixa), mas não se tinha uma visão de todo o estado, as peculiaridades das ações cíveis, criminais, dos Juizados. Não tínhamos parâmetros para fazer uma avaliação do trabalho.

 

Hoje o cenário já se alterou, embora ainda se encontram Varas e Cartórios com idênticas matérias, mas com rotinas de trabalho diversas, em que não há uma padronização, gerando perplexidades no público externo, que não compreende como é possível conviverem rotinas de atendimento tão diferentes, por exemplo.

Mas seja qual for a unidade judiciária em que um servidor está atuando, a visão que possui é, em geral, pautada pela responsabilidade, pelo reconhecimento das expectativas dos jurisdicionados e da opinião pública em relação ao Judiciário, de que deva ser correto e eficiente.

 

O servidor do judiciário em geral é um servidor qualificado, possui a formação superior completa. Inclusive a maioria dos colegas no Tribunal em que trabalho possui especialização, alguns já estão fazendo Mestrado e, um ou dois, o Doutorado. Quase todos participam de cursos regulares de reciclagem funcional, se atualizando.

 

É um profissional que tem a visão de que possui afinidade em trabalhar na área do Direito, em que o gosto pela leitura, pela pesquisa e sistematização se fazem presentes. Este servidor normalmente se reconhece como alguém que gosta de escrever, além de organizar e sistematizar tarefas.

 

E o que significa esse conjunto de idéias e fatos que mencionei agora em relação à visão do servidor? Observo que isso significa a possibilidade de um aproveitamento maior pelos lideres e gestores da visão que possui um servidor a respeito do seu ambiente de trabalho. Significa que são pessoas qualificadas e aptas a transmitir idéias, sentimentos e avaliações.

 

Significa que a visão de um servidor a respeito do seu local de trabalho é uma visão qualificada, que pode ser aproveitada pelo líder, pelo gestor. Embora não seja possível igualar esta visão à de um magistrado, a visão do servidor pode sim acrescentar, somar ao ideal proposto pelo juiz ao seu local de atuação. Os valores organizacionais e a missão da instituição devem se fazer presente em toda a visão que um servidor tem.

 

Aliás, são também os servidores que divulgam o local em que trabalham, para o lado de fora do ambiente da justiça. Eles também são os propagandistas da organização onde trabalham, dos valores com que atuam.

 

E, ao falar em ambiente de trabalho, é importante salientar que esse é um fator importante tanto em termos de visão quanto de expectativa de um servidor. O ambiente de trabalho é o local onde se forma a equipe, onde todos planejam, todos expõem e se expõem, opinam e colaboram. É onde todos vibram com a vitória e choram as derrotas, por que elas são de todos. Um servidor qualificado como já comentei espera que o seu ambiente de trabalho seja saudável, agradável e cordial.

 

Por isso, devemos repensar o relacionamento a ser mantido com o público interno, aqueles que auxiliam na execução do trabalho. Isso reflete diretamente na expectativa que um servidor tem do seu potencial de auxílio.

 

No que diz respeito à expectativa, podem ser destacados pontos essenciais representativos daquilo que espera um servidor ao ingressar no serviço público, em especial na área da justiça.

 

Ao conversar com outros servidores os seguintes aspectos mereceram destaque quanto à expectativa: poder atuar na resolução dos conflitos, ainda que de forma indireta, isto é, no auxílio de um magistrado, sentindo-se parte daquela solução encontrada para o caso. Desejam encontrar uma liderança sensível, com senso de justiça e equidade, alguém que inspire respeito. Esperam trabalhar em um local em que haja transparência, o respeito, o reconhecimento, o aprendizado profissional, a possibilidade de desenvolvimento na carreira. Estímulos para que se motivem permanentemente e o "feedback" sobre o seu desempenho também foram lembrados.

 

Um dos pontos que me chamou a atenção foi a questão da expectativa em relação ao local de trabalho no que diz ao fato de que seja saudável e cordial, em especial no respeito à liderança. E por liderança, neste momento estamos falando do magistrado daquela unidade judiciária em que o servidor está lotado.

 

Vladimir Passos de Freitas, em seu artigo "O relacionamento entre magistrados e servidores", publicado no site conjur.com.br, em 31/10/2010, esclarece que o relacionamento entre magistrados e servidores pode influir direta e imperceptivelmente no tempo de duração de um processo. Ele ressalta que uma ação pode fluir rápida ou lentamente, a depender das relações humanas na unidade judiciária.

 

Ele menciona que o magistrado é o líder, o gestor que administra a equipe que dá suporte à sua ação e cita as várias consequências da posição assumida por este líder em função das suas características.

 

Lembrei de relatos em que os colegas sentiram a falta de um simples cumprimento no seu local de trabalho, de que não se sentiam necessários, praticamente invisíveis. Não que quisessem forçar qualquer intimidade, mas de interesse ainda que genérico, um trato cordial e saudável, ao contrário do que acontecia naquele local: a entrada em silêncio do magistrado que cruzava por todo o gabinete sem dizer uma palavra, entrava na sua sala, fechava a porta e tratava dos assuntos diários apenas com a sua assessoria. Ao final do dia, de lá saía, com a luz já apagada, para ir embora, sem novamente dirigir uma só palavra aos presentes naquele ambiente.

 

Imaginei se tal conduta, realmente não teria impacto no funcionamento, no trabalho realizado por aquelas pessoas, qual seria a motivação intrínseca para se trabalhar naquele local. Já foi comentado que salário já deixou de ser a única visão que possui o servidor. Suas expectativas estão ao lado do crescimento das exigências que o serviço demanda.

 

Mas a expectativa por uma liderança habilidosa é importante. No conceito de James Hunter, no livro "O monge e o executivo", liderança "é a habilidade de influenciar pessoas para trabalharem entusiasticamente visando atingir aos objetivos identificados como sendo para o bem comum."

 

Tal fator acredito ser tão importante, porque um profissional motivado e feliz é aquele em que os esforços são voltados para um trabalho prazeroso, num ambiente saudável, em que os desafios são superados como forma de encontrar o melhor resultado pretendido.

 

Mas bons exemplos de liderança, em que as expectativas de um servidor são superadas também não faltam. E sou grata por ter tido a oportunidade de ter participado de um desses exemplos. Há alguns anos, trabalhando em um gabinete de determinado Desembargador, estávamos por mudar de matéria, em que a maioria dos servidores que lá estavam à época não detinha maiores conhecimentos do que iria enfrentar, quando pelo referido Desembargador nos foi proposto um outro tipo de desafio, como forma de afastar os temores e reforçar o sentimento de equipe: a participação num rafting.

 

E assim, após o enfrentamento de tal desafio, os servidores se sentiram mais confiantes, e é preciso dizer que o grupo restou mais unido, em pouco tempo se organizando no aprendizado da matéria e logo, em época em que ainda não se falava de gestão de processos, estávamos auxiliando o magistrado a cumprir a meta de julgar mais do que entrava na distribuição. Aliás, o resultado da liderança exercida por este magistrado se traduz no fato de que, aposentando-se o Desembargador, o grupo de servidores, dispersos pelo Tribunal em outros setores, ainda se reúne fora do expediente, inclusive, em alguns desses momentos, contando com a presença do juiz a quem todos admiram e que hoje mora em outro Estado.

 

Outras expectativas relatadas por colegas foram as reuniões periódicas, debatendo a produtividade, a performance, o desempenho da equipe. Justamente porque possuem a necessidade de reconhecimento como um participante da equipe, para que possam continuar motivados. A motivação é um fator da essência do ser humano. Encontra-se nos cérebros e nos corações dos servidores, que ao trabalhar naquilo que lhes interessam, que lhes gratificam, sentem-se motivados. Motivação é o combustível.

 

Estas são algumas das expectativas que reconheço serem nada modestas.

 

Não é demais dizer que a postura da magistratura e de todo o corpo de servidores do Judiciário deve estar voltada à justiça e à satisfação das partes, razões de ser de todo o aparato processual. O trabalho destes profissionais deve realizar os preceitos insertos na Constituição, de modo a promover o bem-estar e a inclusão social. Felizmente encontram-se, inúmeros exemplos de uma conduta sensível e atualizada com as necessidades de gerenciamento do acervo de processos para julgamento, seja na área afim, seja na área administrativa de um órgão da justiça.

 

Como fecho, gostaria de relembrar um ensinamento que pode ser aplicado em tudo na nossa vivência: "Devemos tratar os outros como gostaríamos de ser tratados".

Rosana Maier dos Santos por Rosana Maier dos Santos
Rosana Maier dos Santos. Analista Judiciária no TRF da 4ª Região. Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais. Especialista em Administração Pública pela UFRGS.

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