Esqueci minha senha
Ir para o conteúdo - Atalho [T]

IBRAJUS - Instituto Brasileiro de Administração do Sistema Judiciário

Revista On-line

IMAGEM E ETIQUETA NAS PROFISSÕES JURÍDICAS

 

A imagem do operador jurídico é pouco discutida. A etiqueta, por vezes, é confundida com ultrapassadas regras de comportamento que não servem para nada. No entanto, ambas são instrumentos importantes nas relações humanas em geral e nas profissões jurídicas em especial.

Comecemos pelos estudantes de Direito. Os que chegam hoje às Faculdades diferem de outras gerações. Não importa a razão (p. ex., pode ser o pouco contato com mães na primeira infância), mas sim o fato. E este é que boa parte deles são menos ligados ás regras não escritas da etiqueta do que seus colegas de 20 anos atrás. Assim, entram e saem da aula sem pedir licença, alguns de boné na cabeça, reagem de forma exagerada a qualquer negativa, usam roupas mais adequadas a uma quadra de bola ao cesto do que a uma sala de aula, confundem educação com bajulação.

Tal tipo de postura acaba influenciando diretamente o desenvolvimento intelectual e o futuro profissional do estudante. Cria uma imagem negativa que vai refletir-se nas suas atividades. Dificilmente será lembrado para participar de um estágio, projeto de pesquisa ou grupo de estudos. Uma vez graduado em Direito, possivelmente reprovado no Exame de Ordem, sem relacionamentos que lhe abram portas para a vida profissional, acabará trabalhando em atividades totalmente estranhas ao Direito. Vale dizer, perdeu tempo e dinheiro ao cursar a Faculdade.

É durante o curso que se participa de estágios. Neles o estudante deixará o rastro de sua passagem e dela, surgirão ou não, as oportunidades. Se tiver sido educado, trabalhador e discreto, talvez seja chamado para ocupar uma boa posição em uma empresa ou órgão público. Mas, se passou seu tempo a demonstrar sua ruidosa alegria, dando sonoras gargalhadas e  tratando o Diretor informalmente, certamente será lembrado apenas para fazer parte de atividades esportivas e sociais. Nada mais.

Mas, a etiqueta não é importante apenas para os jovens. Os que conquistam o título de advogado dela também necessitam. A começar pela admissão em um escritório. É a mais absoluta falta de noção enviar o currículo por e. mail e tratar o dono do escritório com um juvenil: “ Oi João Carlos”. Ou, se for mulher, comparecer a uma entrevista com salto alto 18 e um decote exagerado nas costas.

No exercício da advocacia a etiqueta é fundamental. Se fizer parte de um grande escritório, com carreira organizada, deve saber que está sendo avaliado constantemente. De nada adiantará fazer boas peças se na festa de fim de ano exagerar na bebida alcoólica e passar a exibir, animadamente, seus dotes de cantor ou dançarino.

Nas audiências uma postura profissional respeitosa será a regra. Para expor suas ideias não é preciso ridicularizar o advogado da parte contrária. Para expor algo ao juiz não precisa berrar. Distribuir beijinhos a quem se aproximar não revela personalidade amiga, mas sim vulgaridade. Atender o celular, nem pensar. Tratar bem os funcionários de Cartório para ser bem tratado é regra básica de cortesia. Manter segredo das mazelas que lhe chegam ao conhecimento é dever ético.

A etiqueta e cuidar da imagem, por óbvio, não são recomendáveis apenas aos profissionais liberais. Aos que exercem função pública suas regras também são essenciais. Da forma como elas são manejadas pode resultar um convite para uma função de cúpula ou o esquecimento em uma atividade sem relevância.

Nos Tribunais, é falta grave deixar todos aguardando 20 ou 30 minutos para iniciar a sessão, tudo porque os desembargadores estão tomando café em uma ante-sala. Nas sessões solenes, nada pode ser mais desrespeitoso do que aguardar até uma hora a chegada do governador. Horários são marcados para serem cumpridos.

Juízes não criticam pessoas publicamente. É de péssimo gosto ficar contando aos advogados suas queixas contra o Tribunal. Mais ainda, colocar nas sentenças admoestações a autoridades do Executivo ou do Legislativo. Da mesma forma, criticar os colegas, o que, além de ser de mau tom, ainda acaba afetando negativamente o próprio detrator e o seu Tribunal.

Promotores de Justiça, muitas vezes íntimos amigos dos juízes, valem-se desta proximidade para obter tratamento processual privilegiado nas audiências. Não é atitude correta. Tal atitude cria na parte contrária a sensação de parcialidade. Se tal prática persistir, cabe ao Juiz conduzir-se de maneira formal, deixando evidenciada sua independência.

Professores têm um papel de grande relevância, pois não ensinam somente Direito, mas também transmitem lições de vida. Aqueles que para alcançar popularidade falam palavrões em aula, ridicularizam pessoas ou instituições, estão formando profissionais deformados e que irão mais tarde repetir tais comportamentos nas suas atividades.

Na Polícia, a etiqueta é mais complexa. Acostumados a tratar com as mais graves situações, tendem os policiais a tornar-se mais ríspidos. Mais na Polícia Civil e na PM, onde surgem as ocorrências mais repugnantes, menos na Polícia Federal, onde os infratores costumam ter melhor nível social. No entanto, diariamente é preciso que o policial renove a conscientização de que o rigor na investigação não exige a humilhação de quem quer que seja. Ou, como já disse Tchê Guevara “é preciso endurecer sem perder a ternura”.

O traje. As profissões jurídicas são formais, tradicionais. Portanto, tal como se tem, inconscientemente, a expectativa de que um médico esteja de roupa branca e um militar com a barba bem feita, dos operadores jurídicos se espera que usem roupas adequadas às funções. Do juiz, sempre o mais visado, não se imagina que esteja no Fórum vestido com um agasalho de moletom e tênis, mesmo fora do horário de expediente. De uma procuradora da República em audiência, espera-se algo como um “tailleur pantalon” e não uma saia curta, o que vulgarizaria seu cargo. A importância do cargo obriga que se preserve o cargo, mesmo que as roupas não revelem o caráter da pessoa.

Em suma, em tempos de flexibilização geral, é bom evitar os excessos na linguagem, os trajes inadequados e a indiscrição, pois todos eles têm significado de comunicação não verbal, implícita e subliminar. A construção de uma boa imagem profissional não se limita aos anos de experiência e aos títulos acadêmicos, mas também ao modo como o profissional é visto na sociedade.

Vladimir Passos de Freitas por Vladimir Passos de Freitas
Ex-Presidente do TRF 4a. Região, professor doutor da PUC/PR e Presidente do IBRAJUS

Site Pessoal: http://www.vladimirfreitas.com.br
mais artigos deste autor»
COMO COLABORAR COM O SITE
Toda colaboração que venha enriquecer a discussão sobre a Administração do Poder Judiciário é bem vinda. Para enviar seus artigos e participar do nosso fórum basta cadastrar-se no site.

CADASTRE-SE AGORA MESMO