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IBRAJUS - Instituto Brasileiro de Administração do Sistema Judiciário

Revista On-line

APLICATIVO POLICIAL PARA CONTROLE E ORGANIZAÇÃO DE FONTES VIVAS DE INFORMAÇÃO

1.            Introdução

Todas as polícias judiciárias do mundo, responsáveis pela investigação criminal, utilizam em alguma medida fontes vivas de informação, isto é, pessoas que repassam para os policiais informações importantes sobre organizações criminosas, autoria ou circunstâncias de um crime e a localização de suspeitos e procurados.

Atualmente - com o incremento de aplicativos tecnológicos de informática, a melhoria constante da internet e seu sinal e o conhecimento adquirido por criminosos dos meios tecnológicos utilizados pela polícia para obter informações e provas - verifica-se uma diminuição sensível do uso de aparelhos telefônicos por criminosos, fazendo com que a polícia precise retomar de forma organizada e sistemática a captação e utilização de fontes vivas de informação em suas investigações.

A utilização de colaboradores e informantes, desde que feita a partir de uma doutrina bem desenvolvida de identificação de recursos, seleção, captação e manipulação de fontes vivas, permite economizar custos e tempo na aquisição de informações/provas e na identificação e localização de suspeitos. Muitas vezes, a utilização de fontes vivas é o único meio disponível à investigação e proporciona maior segurança e certeza, quando bem trabalhada, na obtenção da informação.

 

2.            Problema

Em que pese a maioria dos policiais possuírem sua rede de informantes e colaboradores informais, poucos organizam esse conhecimento, carecendo de uma ferramenta que os permita utilizar sua rede de forma lógica e rápida quando efetivamente precisam. Na maioria das vezes, os policiais contam com lembranças vagas de que possuem possíveis colaboradores-informantes, mas não conseguem utilizá-los prontamente ou em todo o seu potencial.

Com certeza, todos que trabalham na área de investigação criminal já passaram pelo seguinte diálogo com outros policiais ao receberem uma informação de que uma pessoa foi morta em determinada região da cidade:

- Foi na rua tal? Eu já atendi uma situação lá. E acho que tenho alguém na região que pode saber alguma coisa. Quando foi mesmo? Como era o nome daquela pessoa? Foi na época que eu trabalhava em outro distrito policial. Com certeza a pessoa vai saber quem cometeu o crime e o que aconteceu. Ao menos conhecia a vítima. Mas como vou fazer pra encontrá-la?

A obtenção de informações para a investigação criminal através de fontes vivas/colaboradores-informantes não pode, dada a sua relevância e utilidade, ser tratada sem qualquer sistematização ou organização.

 

3.            Aplicativo para controle e organização de colaboradores-informantes (custos, viabilidade e vantagens)

Pensando em permitir uma maior sistematização e padronização nos processos de captação, organização e utilização de fontes vivas de informação, pensou-se em uma ferramenta tecnológica que permite um pronto acesso - já que pode ser utilizada em computadores, tablets ou smartphones de forma simples e rápida - aos possíveis colaboradores ou informantes de determinada região.

O aplicativo “Organizador de Fontes Vivas” consiste, em síntese, em uma tabela que permite o registro organizado de possíveis colaboradores-informantes, abrangendo o registro dos dados do colaborador, a listagem e filtragem dos dados, a visualização dos dados no mapa e, se for o caso, o compartilhamento dessas informações com outros policiais. O aplicativo utiliza como base a ferramenta Google Fusion Tables, uma plataforma sem custo desenvolvida pelo Google para a gestão simplificada e integrada de dados.

a.            Registro de Informantes

O primeiro passo na ferramenta Google Fusion Tables é definir quais dados serão armazenados sobre o informante. Nesse protótipo foram escolhidos os seguintes dados: um identificador único para o informante, apelido/codinome, telefone, localização, bairro, grau de confiança e observações complementares.

Figura 1. Tela de definição dos dados que serão armazenados sobre o informante.

 

Após a definição dos dados já é possível dar início ao armazenamento das informações. A captação de colaboradores pode ocorrer em todas as atividades do policial, como, por exemplo: quando da lavratura de um boletim de ocorrência, do atendimento a familiares de presos e advogados, em conversas informais com amigos, quando em atendimento a vítimas, em conversas com criminosos ou ex detentos, etc.

 

Figura 2. (a) Tela de registro de informante. (b) Permite pesquisar localização no mapa.

Um aspecto interessante da ferramenta é permitir a pesquisa de determinada localização no mapa, tornando assim o processo bastante simplificado para o usuário leigo. Caso o usuário já possua uma listagem de seus informantes em planilha, é possível fazer a importação automática dessas informações. São aceitos os seguintes formatos de arquivo para importação: Excel, LibreOffice e Google Spreadsheets.

b.           Listagem, Filtragem e Visualização de Informantes

Uma vez que as informações estejam cadastradas já é possível manipulá-las. Para uma gestão otimizada dessas informações a ferramenta oferece diversas funcionalidades, como a exibição em formato de lista, ordenação, filtragem, exibição em mapa, sumarização dos dados para exibição de gráficos, etc. Cada usuário tem a liberdade de personalizar a exibição de seus dados conforme a sua necessidade.

 

Figura 3. Tela de listagem dos informantes com a possibilidade de filtragem por bairro.

 

Visualizar facilmente no mapa a localização de todos os informantes talvez seja o principal benefício do uso da Google Fusion Tables. Com base no dado registrado no campo "Localização", a ferramenta automaticamente geocodifica essa localização e posiciona o informante no mapa. Outro aspecto interessante dessa funcionalidade é a possibilidade de aplicar diferentes marcadores para cada tipo de dado. Nesse modelo foram criados três marcadores para cada grau de confiança do informante, isto é, o informante de nível 1 (confiável) recebeu o marcador de cor verde, o de nível 2 (pouco confiável) recebeu a cor amarela e o de nível 3 (não confiável) recebeu a cor vermelha. Para obter informações sobre determinado marcador no mapa basta clicar sobre ele.

Figura 4. Tela de exibição dos informantes no mapa. Cores diferenciam o grau de confiança.

 

Conforme o número de marcadores no mapa aumenta é possível também criar um mapa de calor - Heatmap. Os mapas de calor utilizam diferentes cores para representar a densidade dos pontos no mapa.

 

Figura 5. Tela de exibição de mapa de calor.

 

Outra funcionalidade bastante interessante é a de geração automatizada de gráficos. A ferramenta oferece uma variedade de opções de gráficos para o usuário apenas personalizar de acordo com seu interesse. Dessa forma é possível transformar dados brutos em informações estratégicas.

Figura 6. Gráfico que exibe a distribuição de informantes por bairro.

 

Existindo uma ferramenta como a que se apresenta neste artigo, a postura do policial muda perante a captação de colaboradores, pois ele passa a adotar uma atitude proativa agora que tem como guardar de forma organizada uma grande quantidade de dados. Todo policial passa a ter como objetivo formar uma grande rede territorial de fontes vivas. Em alguns meses, o policial consegue conhecer a situação geral de diversos ambientes da cidade, nunca mais começando uma investigação do zero e podendo inclusive prevenir e antecipar ações criminosas.

Em minha atuação profissional, desde quando comecei a utilizar tal ferramenta, nunca sai para atender um local de crime sem saber ao menos algumas informações da vítima e de como estava a situação na região onde o crime ocorreu (quais grupos criminosos lá agiam, quais os principais problemas, quais os pontos críticos). Chegando a notícia de um fato criminoso, antes de sair para atendimento do local, consulto o mapa e verifico se existe algum possível colaborador na região, efetuando uma ligação telefônica para saber do ocorrido, da área ou de envolvidos.

A segurança das informações é garantida na medida em que o acesso exige autenticação e o tráfego de informações é resguardado pela utilização de criptografia SSL. Vale ressaltar ainda que o vínculo que se forma entre investigador e colaborador-informante é sempre pessoal, não sendo possível o contato e a obtenção de informações senão por aquele que captou o colaborador.

Por fim, conclui-se que a viabilidade e utilidade do aplicativo são inegáveis, pois o custo de implementação é zero, seu uso é intuitivo e com ele permite-se uma máxima obtenção de informação com o menor risco e um menor gasto de tempo e dinheiro.



Não é objetivo deste artigo desenvolver a doutrina policial de fontes vivas de informação, mas apenas apresentar uma ferramenta que auxilie na sua organização e utilização. Assim, ainda que em detrimento de um maior rigor terminológico acadêmico/científico, esclarece-se que quando se utilizar o termo “fontes vivas de informação” está se referindo às espécies colaborador e informante, sejam eles conscientes ou inconscientes; e não a outras espécies do gênero, como o agente infiltrado e o agente duplo, ainda que a ferramenta também possa ser utilizada para organização e controle do âmbito de atuação desses.

Rafael Ferreira Vianna por Rafael Ferreira Vianna
Delegado de Polícia Civil do Paraná Formado em Direito pela Universidade Federal do Paraná Mestre e Doutorando em Ciências Jurídico-Criminais pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

Site Pessoal: http://www.delegadorafaelvianna.blospot.com
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