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IBRAJUS - Instituto Brasileiro de Administração do Sistema Judiciário

Revista On-line

Ergonomia e Arquitetura: interfaces na elaboração de Programas de Necessidades

Júlia Abrahão

Cláudia Bartolo Patterson

Colaboração: Mônica Regina Ferreira Antunes

O presente trabalho é decorrente da experiência obtida da elaboração dos Programas de Necessidades para subsidiar os projetos arquitetônicos e complementares para as sedes do Tribunal Superior Eleitoral - TSE e do Conselho da Justiça Federal - CJF, em Brasília, nos anos de 2005 e 2006, respectivamente.

A abordagem da Ergonomia segundo a qual se trabalhou no TSE e no CJF tem como objeto de estudo a ATIVIDADE, elemento central e organizador que estrutura os componentes do ambiente de trabalho. A prática dessa abordagem ergonômica se fundamenta na análise da atividade efetivamente executada em situações reais ou de referência e no fato de contemplar, no escopo do projeto, a variabilidade humana e a tecnológica.

A Ergonomia e a Arquitetura se conectam pelo planejamento e pela investigação das atividades. Pela perspectiva do estudo ergonômico, pode-se compreender as atividades humanas e seus requisitos de projeto. Por meio da prática arquitetônica, pode-se projetar os meios que as viabilizam.

Ergonomia: conceitos e abordagens

A Ergonomia é uma área do conhecimento que tem como objetivo maior a adaptação do trabalho e do ambiente de trabalho ao ser humano.

A atividade de trabalho é considerada como o fio condutor que integra as características técnicas, organizacionais e da população de trabalhadores definidas ao longo do projeto. Portanto, a ANÁLISE ERGONÔMICA DO TRABALHO é um dos principais suportes para a compreensão e o estabelecimento de metas e direções a serem seguidas pelos que administram e executam as atividades de trabalho. Sendo a ação de natureza interdisciplinar, o questionamento dos meios físicos onde se desenvolve a tarefa descerra uma porta para a prática da arquitetura e nos aconselhamentos de projetos ou de reformas nos ambientes físicos.

Essa abordagem exige uma abertura de espírito significativa dos atores sociais que participam de uma ação ergonômica, ao mesmo tempo em que enriquece a representação destes sobre o trabalho. O procedimento subjacente a esse modelo implica decompor a atividade para recompô-la, sob novas bases, considerando a análise da atividade desenvolvida e a participação do trabalhador no processo. Os dados resultantes desse procedimento são tratados a fim de distinguir os elementos que de uma maneira ou de outra influenciam a atividade.

A análise de cada uma dessas variáveis deve integrar as bases da abordagem ergonômica que pressupõem o estudo centrado na atividade real de trabalho, a globalidade da situação de trabalho e a consideração da variabilidade, tanto a decorrente da tecnologia quanto a dos trabalhadores.

Na análise da atividade, a presença do ergonomista na situação de trabalho e durante a realização da mesma é um fator determinante. Essa presença constitui uma diferença fundamental entre a Ergonomia e as outras abordagens do trabalho, pois, nesse cenário, o ergonomista insere suas preocupações com relação ao ambiente construído. Definir uma metodologia de avaliação ergonômica de projetos de ambientes construídos não constitui uma tarefa simples. A diversidade de variáveis envolvidas nesse processo, a multiplicidade de fatores que influenciam sua adequabilidade, contribui para consolidar uma ação de natureza interdisciplinar.

Arquitetura e Programa de Necessidades

O Programa de Necessidades é estabelecido a partir da listagem do que se pretende fazer ou do que será necessário prever para o projeto a ser elaborado, indo, no entanto, muito além de medidas-padrão ou de uma razão determinada pela área do espaço físico destinado a cada indivíduo. Incorporado ao Programa estão, também, as variáveis sociais, culturais, econômicas e artísticas do momento histórico.

Portanto, ao Programa de Necessidades, além do caráter quantitativo, pode-se atribuir o caráter qualitativo[1], na medida em que a interpretação dos dados fornecidos para a sua elaboração surge a partir de referenciais distintos que integram as atividades e as intenções que farão parte do projeto.

Programa de Necessidades e Análise Ergonômica do Trabalho

A análise das peculiaridades de cada atividade para a determinação dos espaços em que serão desempenhadas é fundamental para o seu dimensionamento e sua qualificação, a fim de que o trabalho a ser executado possa ser realizado da melhor forma possível.

A Análise Ergonômica do Trabalho trata, conforme apresentado, da atividade de trabalho articulada com diferentes pontos de vista[2]. Nessa perspectiva, ela se legitima enquanto ferramenta determinante na elaboração do Programa de Necessidades. Entender como as atividades acontecem independentemente da tarefa prescrita em atribuições e normas de procedimentos torna-se o fio condutor para a percepção das distintas realidades de uma instituição. Assim, o exame das peculiaridades das atividades de trabalho e a sua qualificação permitem definir as características arquitetônicas necessárias para o espaço a ser projetado.

A leitura do funcionamento do órgão sob o ponto de vista da atividade pressupõe como objetivos permitir a transformação do trabalho, proporcionar a leitura crítica do funcionamento da instituição, entender como os servidores da instituição realizam o trabalho que lhes foi atribuído, perceber o contínuo ir e vir entre a atividade de trabalho e o conjunto de seus determinantes, e construir a análise a partir de pontos de referência [3]

Elaboração do Programa de Necessidades - Experiência do TSE e do CJF

Projetar os espaços físicos destinados à Justiça Eleitoral implica em considerar a existência de dois momentos particulares: um pico de menor intensidade de funcionamento e um pico de funcionamento máximo durante o período eleitoral, que começa de seis a oito meses antes da realização do pleito. Nessa época, a população que utiliza as instalações físicas do TSE chega a triplicar. Portanto, o dimensionamento dos espaços deve levar em consideração o auge de funcionamento intenso. Projetar arquitetonicamente esses espaços sem pensar nessas variáveis é, sem dúvida, não resolver os problemas atuais.

Distintamente, o CJF possui um funcionamento mais uniforme, mesmo considerando o grande afluxo freqüente de usuários externos, tendo em vista que é, normalmente, uma população flutuante prevista e delimitada.

Com o propósito de fornecer subsídios para os projetos arquitetônicos e complementares da sede do TSE, e posteriormente adotando-se o mesmo modelo para do CJF, foi montado um grupo de trabalho multidisciplinar com a participação de profissionais de Ergonomia, Arquitetura, Engenharia, Psicologia e Administração.

A equipe adotou como eixo norteador a participação dos usuários das diferentes unidades do órgão em Grupos Focais para a definição dos critérios balizadores do Programa de Necessidades. As informações por eles fornecidas são resultado do profundo conhecimento das rotinas e procedimentos diários na execução das suas atividades profissionais no órgão.

Foram definidas três etapas para a elaboração do Programa de Necessidades:

· ETAPA 1 - Coleta de informações dos Grupos Focais com os seguintes passos:

1) Leitura das atribuições constitucionais para o entendimento do funcionamento do órgão dentro da estrutura do Poder Judiciário.

2) Conhecimento do organograma funcional do órgão e do seu funcionamento.

3) Entrevista com os dirigentes e secretários para exposição e aprovação da metodologia de trabalho.

4) Elaboração de questionário com questões relativas a dados da unidade entrevistada, data da entrevista, número atual de servidores da unidade e seu cargo funcional, qualificação das atividades (descrição dos procedimentos e rotinas não somente quanto ao produto, mas, principalmente, quanto à ação do usuário para desempenhar a sua tarefa), descrição do mobiliário e dos equipamentos necessários para o desenvolvimento das atividades, inter-relação entre as unidades quanto à demanda e à necessidade de proximidade física, tipo atendimento feito ao público e situações em que ele ocorre, proposta para alteração da estrutura organizacional e funcional do órgão, e ampliação do número de servidores, e expectativas com relação ao prédio a ser projetado.

5) Divisão da equipe em grupos de condução dos trabalhos com os Grupos Focais, com a participação de profissionais com formação em Psicologia para a condução das entrevistas e da coleta de dados.

6) Marcação e comunicação dos horários e locais das reuniões com os Grupos Focais das unidades do órgão.

7) Envio do questionário aos participantes dos Grupos Focais, para conhecimento prévio.

8) Reunião com os Grupos Focais para identificação das diferentes atividades e especificidades de cada unidade, utilizando como diretriz o questionário distribuído.

9) Coleta das informações com o registro dos dados no computador.

10) Validação imediata dos elementos compilados, pela projeção dos dados com a utilização de data show.

· ETAPA 2: Tratamento dos dados

Os procedimentos descritos na Etapa 1 possibilitaram a identificação das atividades que são realizadas em cada unidade, suas peculiaridades, as suas relações de interdependências com outros setores e a definição de espaços coletivos.

Para o tratamento dos dados coletados foram utilizados elementos técnicos que permitiram traduzir informações subjetivas em determinantes arquitetônicos relativos a materiais de construção, acabamentos, tipos de instalações prediais e condicionantes espaciais, além do próprio pré-dimensionamento do espaço necessário para o desenvolvimento das atividades descritas.

Paralelamente, foi elaborada uma Tabela de Unidades de Áreas contendo a unidade de área mínima para um pré-dimensionamento do espaço físico destinado a uma determinada atividade.

· ETAPA 3: Elaboração do Programa de Necessidades

Apresentado em forma de planilha, o Programa de Necessidades consolidou as informações qualitativas e o pré-dimensionamento dos setores envolvidos na unidade apresentada, seguindo os passos abaixo relacionados:

1) Montagem da Planilha contendo os principais itens abordados na entrevista contemplando: a unidade principal dentro do organograma do órgão; as subunidades, referentes à unidade principal; a área em metros quadrados (m²), calculada a partir do número de servidores da subunidade multiplicado pela área-padrão para a atividade relacionada; os tipos de divisórias definidos a partir da interpretação e análise técnica das informações sobre os tipos de atividades exercidas na subunidade; a relação de proximidade para determinar a distribuição das unidades no prédio; o atendimento ao público: interno, externo ou ambos; a relação de materiais e mobiliário listados nos questionários dos Grupos Focais; o Total Geral da área destinada à unidade principal que servirá como base para o seu dimensionamento espacial (nesse cálculo de área não estão computadas as áreas de circulação comum, áreas técnicas, sanitários coletivos e outros ambientes que dependem da definição do partido do projeto arquitetônico. Para fins de pré-dimensionamento do valor total de construção da edificação, adotou-se a porcentagem de 25% do valor da área útil de ocupação das unidades do órgão adicionada ao valor do somatório das áreas totais gerais das unidades principais).

2) Anexação de documentos que venham a definir parâmetros, orientações e normas técnicas estabelecidas para determinadas atividades a serem desenvolvidas, como, por exemplo, arquivos, cozinhas industriais etc.

3) Consideração das normas definidas em lei para os Portadores de Necessidades Especiais e de Vigilância Sanitária.

4) Definição de valores e princípios do órgão para a concepção do projeto.

5) Listagem de diretrizes gerais, tais como construção em etapas, métodos construtivos etc.

Considerações sobre o Programa de Necessidades

O Programa de Necessidades é um importante suporte na elaboração do projeto arquitetônico e seus complementares, servindo como instrumento para tomadas de decisões quanto a:

· Definição de ação para a solução de problemas de espaço físico e instalações prediais, isto é, opção de uma nova construção, ampliação, reforma ou ainda na reformulação do leiaute existente.

· Escolha de terrenos ou edificações já existentes que sejam adequadas ao que o órgão realmente necessita em suas instalações.

· Elaboração de estudos de impacto ambiental, de tráfego e outros em função das atividades do órgão.

· Locação de recursos orçamentários previstos para a execução das obras e serviços de engenharia.

· Acompanhamento e avaliação do projeto arquitetônico e projetos complementares.

· Acompanhamento e avaliação de planilha orçamentária para projeto e obra.

· Registro das reais necessidades dos órgãos quanto ao seu funcionamento, espaço físico demandado, equipamentos etc.

· Suporte técnico com critérios de avaliação de projetos a serem inclusos na Proposta Orçamentária Anual – POA e no Plano Plurianual - PPA.

Diferencial do método aplicado

A partir dos resultados obtidos nas experiências do TSE e do CJF, podemos afirmar que a elaboração do Programa de Necessidades com base na Análise Ergonômica do Trabalho permitiu o alcance dos seguintes diferenciais:

· Precisão no dimensionamento dos espaços a serem projetados.

· Distribuição dos espaços de acordo com as reais necessidades de funcionamento do órgão e não somente pelo critério de hierarquia organizacional.

· Definição prévia para o projeto quanto a materiais construtivos e de acabamento adequados às atividades a serem desenvolvidas.

· Pré-dimensionamento e especificação técnica das instalações a serem utilizadas na elaboração dos projetos complementares.

· Definição dos equipamentos e dos mobiliários adequados para o correto desenvolvimento das tarefas das diferentes unidades do órgão.

· Indicação da imagem institucional a ser refletida na definição do projeto arquitetônico.

· Monitoração para a contratação de projetos e obras, tendo em vista que o Programa de Necessidades é parte integrante do contrato.

· Transparência nas decisões a serem tomadas durante a elaboração dos projetos.

· Possibilidade de precisão no cálculo do custo da elaboração projeto e da execução da obra a ser contratada.

· Possibilidade de estabelecimento de prioridades para gastos e investimentos.

· Acompanhamento efetivo do desenvolvimento do projeto arquitetônico e dos projetos complementares, em todas as suas etapas.

· Participação efetiva dos servidores nas definições e determinações para o projeto a ser elaborado.

À guisa de conclusão

O Programa de Necessidades é, portanto, o alicerce e o início de todo projeto arquitetônico. A elaboração do Programa de Necessidades a partir do enfoque ergonômico ofereceu maior alcance para a obtenção de referenciais para o projeto arquitetônico A definição das intenções e dos elementos que deverão estar previstos no projeto a partir das informações fornecidas pelos servidores quanto às atividades por eles realizadas no seu dia-a-dia estabeleceu os parâmetros determinantes dos projetos, ao mesmo tempo em que abriu a oportunidade de soluções que correspondem às especificidades da instituição.

O dimensionamento da área destinada aos ambientes que deverão ser projetados, nas experiências relatadas do TSE e do CJF, decorreu não de uma fria relação de metragem quadrada por indivíduo, mas sim da compreensão das atividades por ele desempenhadas, considerando as múltiplas variáveis que fazem parte do amplo contexto em que são realizadas.

* Trabalho apresentado no 1º Encontro Nacional de Planejamento e Gestão de Obras da Justiça Federal, realizado em Brasília – DF, em março de 2008.

Júlia Abrahão é Professora do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília.

Cláudia Bartolo Patterson é Arquiteta do Conselho da Justiça Federal em Brasília.

[1] CORRÊA, Paulo. “O Programa de Necessidades – Importante etapa metodológica de aproximação e desenvolvimento do projeto arquitetônico”. In: Aedificandi - Revista de Arquitetura e Construção do Grupo de pesquisa Arquitetura e Construção da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie. http://www.aedificandi.com.br/aedificandi/N%C3%BAmero%201/1_artigo_programa_de_necessidades.pdf, consulta feita em 07/03/2008.

[2] ABRAHÃO, Júlia. Palestra ministrada no 1º Encontro Nacional de Planejamento e Gestão de Obras da Justiça Federal, Brasília, março 2008.

[3] Ibidem.


CLÁUDIA BARTOLO PATTERSON por CLÁUDIA BARTOLO PATTERSON
- Arquiteta do quadro do Conselho da Justiça Federal em Brasília

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